Neste domingo, participei da Meia Maratona do Rio, um dos eventos mais importantes do esporte por aqui, com a presença de atletas do mundo inteiro. No entanto, eu pensava que se tratava de “mais uma corrida de rua“, de tantas outras que participei nos últimos meses. Não imaginava o tamanho do meu engano.
Manhã de domingo, um frio que não combina com o Rio de Janeiro. E ainda assim, estavam lá milhares de abnegados, às 6 da manhã, sob chuva fina nos 18°C da praia do Pepê. Realidade bem distante do “Rio 40 graus” da música da Fernanda Abreu. Clima de ansiedade total. Uns buscando melhorar o tempo da corrida anterior, outros debutando na distância, outros pra provar a si e ao mundo que é capaz de superar adversidades.
Dada a largada, vi cenas bastante interessantes. Sotaques de vários estados e países, que fui capaz de ouvir apesar dos meus playlists (falei um pouco sobre a parte musical da corrida aqui). Corredores fantasiados, que eu achava que só encontraria na São Silvestre. Pessoas passando por mim com relativa facilidade (falo isso como se eu corresse rápido, mas tudo bem…
), e pessoas parando por diversas razões. Não podia deixar de citar o corredor de camisa do Botafogo, que foi o tempo todo com um apito na boca, que era soprado a cada expiração. Segundo conversei com alguns corredores do twittersrun, esse cara todo ano corre assim.
Mas o que torna essa corrida especial: um alto astral difícil de definir. Mesmo com o frio e o horário, a corrida bateu recorde de número de inscritos. Mesmo com o atraso da largada (imposto pela Rede Globo, segundo me informaram por lá), ninguém desistiu. E durante a corrida, todos se ajudavam. Seja pra pegar os copos d’água nos postos de hidratação, seja pra te prevenir de não se empolgar demais nas descidas (onde é grande o risco de lesão no joelho), seja perto do fim quando o cansaço ameaça te vencer e vem alguém do teu lado e diz: “não desiste não, falta pouco“. E mesmo sem esses anjos anônimos, existe uma aura nessa corrida que eu jamais vi em nenhuma outra. Principalmente em determinados pontos, onde o corpo protestava, mas fileiras de curiosos batiam palmas e gritavam mensagens de incentivo. Curiosos que acordaram cedo, e mesmo com chuva e frio desceram para ver o desfile de tantos exemplos de superação.
Ao final da corrida, o corpo mal respondia devido ao cansaço, mas a sensação de êxtase se recusava a ir embora. Ok, em boa parte devido a alta concentração de endorfina no sangue. Mas pra algumas coisas, não se pode implicar os hormônios. A insignificância de nossas dores ao ver cadeirantes completarem a prova. A minimização de nossos problemas, até então tão importantes, quando vemos pessoas humildes, alguns já de idade avançada, completanto a maratona repletos de emoção, gritando “eu vou conseguiiiiir” na linha de chegada, e desabando em prantos no colo dos familiares. E a emoção de ver uma pessoa querida vencendo um desafio pessoal, transformando a própria vida num espaço de um ano, saindo de um caminho terminal, para a chance de viver de forma saudável e assim acompanhar o crescimento dos filhos.
Não posso dizer que fui um ignorante completo às mazelas das pessoas, e até arrisco a dizer que me considero uma pessoa solidária, que busca sempre ajudar a quem precisa. Mas mesmo assim, ontem tive uma lição de vida que jamais vou esquecer. E jamais subestimarei uma competição dessa grandiosidade, com toda a certeza.