Parei no Borduna e li um texto bastante interessante que chamou minha atenção: fala do processo de amadurecimento e suas consequências na forma como encaramos relacionamentos. Me identifiquei bastante com o que o Marcelo escreveu, embora talvez escolhesse outro conjunto de palavras para tentar passar as mesmas idéias. Ao deixar um comentário, vi que estava me alongando muito e resolvi escrever um pouco sobre o assunto por aqui.
No post, o Marcelo fala que, depois das desilusões da adolescência com o ‘amor cortês’, a solução dele consiste em se ter a paixão nas mãos mas a razão sempre como guia. Eu concordo com ele: sempre que escuto os versos “ando devagar porque já tive pressa, e levo esse sorriso porque já chorei demais…” eu tenho isso em mente. Depois, ele responde o email de uma leitora do blog, que o taxa de medroso, dizendo que ele não conhece absolutamente nada do amor. Na resposta, ele volta à questão do uso da razão, e conclui assim:
“Escolher parceiro é como escolher qualquer outra coisa, como por exemplo, comida num restaurante. é importante, e diria até necessário, provar algo novo ou muito diferente do seu paladar, mas se o gosto não for satisfatório, para que insistir no pedido ou repetir a dose?“.
Na verdade, entendo perfeitamente a questão da leitora. Ela questiona a visão de ‘paixão à luz da razão’ como uma forma de se esconder do sentimento, quando na realidade o que ele diz é exatamente o contrário: é a entrega ao sentimento, só que à luz do aprendizado de tombos passados, e do que realmente queremos para nossas vidas. Quando somos mais novos, botamos muito mais fé no inesperado, na variável desconhecida capaz de transformar toda e qualquer adversidade relacionada àquela parceira, como uma tribo politeísta fazendo a dança da chuva.
Com a experiência e os tropeços, já constituímos uma massa crítica de informações que nos permite nos posicionar melhor e dar menos crédito ao desconhecido. Como diz um amigo meu, ao longo do tempo vamos calibrando nossos ‘detector de roubadas‘. Com isso nos livramos do desconhecido? Claro que não. Mas com os calos da viagem, sabemos com certeza o que não dá certo. Sabemos o que é mutável e o que é negociável. E o inesperado passa a ser o que deveria desde o princípio: o tempero secreto dessa salada de razões e emoções.
Para uns pode parecer que a vida vista assim fica sem graça, racional demais, e a essas pessoas eu deixo meu boa sorte, um pacote de curativos e um tubo de hipoglós. Se jogar intensamente é muito legal, e quando dá certo, é maravilhoso. Mas se não dá também, a porrada é das grandes. Como pouquíssima gente acerta de primeira, me arrisco a dizer que todo mundo se joga intensamente e leva uma porrada das grandes, pelo menos uma vez na vida. A grande diferença é que uns encaram isso como um aprendizado, vão em frente e calibram os seus detectores de roubadas, e outros seguem na tentativa e erro, e tomam as mesmas porradas da primeira vez. E não é medo, e sim o aprendizado resultante dele. Existem outros casos (os que desistem, os que passam a praticar o celibato, os que mudam de opção sexual, os que buscam o suicídio, …), mas me atenho somente nesses dois.
Pra não dizer que concordo 100% com ele: o ponto em questão não é o amor cortês, pois na minha opinião ele não tem data nem condições para acontecer. O grande ponto de todo esse exercício de reflexão é de como e quando levantamos nossas defesas e deixamos que o amor finalmente seja verdadeiro e recíproco. E isso ao meu ver não faz desse amor mais ou menos cortês. Mas mesmo assim, essa é uma das variáveis secretas do processo, por mais que utilizemos toda nossa experiência passada para nos defender (ou não). Como naquela frase que já citei várias vezes aqui, “o homem faz planos, e Deus ri“. Não estamos livres dos tombos, mas com certeza cada vez mais preparados para suas consequências.